sábado, 23 de outubro de 2010

Episode 18 - The grand finale

  Uma da manhã, estou cansado e banhado de sal seco, já perdi a conta aos cigarros que apaguei e aos copos que esvaziei para me enganar a mim e à mágoa. Mal os olhos têm força para despertar, já o coração não se acredita. Estou em negação profunda, e é realmente estranho estar a escrever em português de Portugal neste blog. A língua materna é a única sentimental o suficiente, a única que entristece e que deixa marcas incompreensíveis. Não estou aqui para passar uma simples mensagem, eu estou a escrever-me neste pedaço de texto, leiam-me, e não reparem nas páginas rasgadas!
  Esta espécie de diário, que desde o amanhecer me serviu de refúgio e de desabafo, tem aqui um triste fim. E agora podia apresentar-vos mil e uma razões, mas será isso mesmo preciso? Nem um único ser à face do globo me perceberia, não com meia dúzia de palavras. Desde já, eu percebo perfeitamente se esta escrita vos parecer desalmada, mas não tenho culpa, apesar de não me importar que a tivesse. É que a inspiração decidiu fugir... Para sempre. Nem um adeus nem uma última réstia de esperança, desapareceu como um balão no céu.
  Por essa razão, este tópico perdeu a alegria. Já não foi escrito pelo sangue que me corria nas veias, nem pelo sorriso que se esboçava na minha face, mas foi rabiscado pela lágrima que se recusava a descer tão cedo, pela dor que esperava, assustada, o desfecho. A vida, na verdade, é um mar de rosas. Parece inofensiva e segura, nunca ninguém esperaria encontrar espinhos na perfeição.
  Quero esquecer a minha vida por uns minutos, mas ainda sinto a pulsação. A tua e a minha, a ligação entre dois pares de olhos castanhos, as duas mãos nunca separadas, o único toque angelical. A marca que deixaste continua a doer-me, por ser o último resto de ti que possuo. Como é possível que todos os nossos sonhos tenham sido apunhalados com tal brutalidade?
  Não posso dizer que morri, afinal estou aqui sentado a escrever com veneno nos lábios. Mas parte de mim desvaneceu-se ao anoitecer. Agora vou sentar-me à janela e esperar o amanhecer outra vez. E no amanhecer, só bastas tu.

"They can't say we never tried" - 22/10/10


Ed Sullivan, pseudónimo de algum rapaz.
(peço desculpa pelo choro nas entrelinhas)

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